Precisamos falar do assédio

Projeto Transmídia, 2016

precisamos falar do assédio

Projeto Transmídia, Documentário, 82', 2016

Sinopse

Na semana da mulher, de 7 a 14 de março de 2016, uma van-estúdio parou em nove locais em são paulo e no rio de janeiro. O objetivo era coletar depoimentos de mulheres vítimas de qualquer tipo de assédio. Ao todo, 140 decidiram falar. Ouvimos relatos de mulheres de 14 a 85 anos, de zonas nobres ou periferias das duas cidades, com diferenças e semelhanças na violência que acontece todos os dias e pode se dar dentro de casa, em um beco escuro ou no meio da rua, à luz do dia. O documentário, que faz parte de um projeto transmídia, traz uma amostra significativa dos depoimentos, 26 deles, além de mostrar uma parte importante do processo de filmagens: como as mulheres se sentiam ao contar seus casos? Nos depoimentos puros, sem qualquer tipo de interlocução ou entrevista, acompanhamos um desabafo, um momento íntimo ou a oportunidade de falarem daquilo pela primeira vez. Nas trocas com as meninas da equipe antes e depois dos depoimentos, permitimos que o espectador entre em contato com uma reflexão da depoente sobre sua própria história, e às vezes sobre o próprio projeto.

Site

www.precisamosfalardoassedio.com

Filme

O longa-metragem está em exibição no Canal Brasil e está disponível na internet através do Net Now.

Na América do Norte, o filme é distribuído pela Women Make Movies.

Sobre o projeto

Depois das hashtags #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto e #agoraéquesãoelas terem ganhado as redes sociais, ficou claro que as mulheres querem falar cada vez mais sobre os assédios dos quais são vítimas. Precisamos falar do assédio é um projeto transmídia, composto por um longa-metragem e um site, que nasceu nesse contexto e pretende ampliar esse movimento, tirando o tema das redes e ocupando também os espaços da cidade com eles.

Na Semana da Mulher, de 7 a 14 de março, uma van-estúdio visitou nove lugares em São Paulo e Rio de Janeiro, passando pelo centro, áreas nobres e periferias das duas cidades coletando depoimentos de mulheres vítimas de assédio. Dentro da van, as mulheres ficavam sozinhas para falar, sem qualquer tipo de entrevistador ou interlocutor, para se sentirem à vontade e poderem contar o que quisessem. As que preferiram não se identificar, podiam usar uma das quatro máscaras disponíveis que representavam os motivos pelas quais elas não queriam aparecer: medo, vergonha, raiva ou tristeza.

Ao todo, 140 mulheres de 14 a 85 anos quiseram contar suas histórias, que vão desde cantadas feitas por desconhecidos no transporte público ou na rua, até estupros cometidos por parentes e dentro da própria casa, quando elas eram crianças. O resultado, mais de 12 horas de material bruto.

Todos esses depoimentos foram reunidos em um site, onde é possível assistir ao relato de cada mulher, na íntegra, sem cortes ou edição. No mesmo site, se você tiver alguma história para contar, também poderá gravar e enviar seu próprio depoimento. Depois de aprovado pela equipe, ele ficará disponível e ao lado de outros relatos que foram gravados através do site.

Além do site, o projeto conta com um longa-metragem de 80 minutos. Nesse filme, você pode acompanhar uma amostra significativa dos depoimentos, num total de 26 relatos.

Precisamos falar do assédio é um projeto vivo, que está em expansão e continua mesmo depois da publicação do site ou do lançamento do filme. A ideia é que ele possa ser estendido para outras cidades brasileiras ou até mesmo replicado fora do Brasil. Quanto mais depoimentos coletarmos, melhor.

Lugares por onde a van passou, São Paulo: Largo Treze (Santo Amaro), Praça do Patriarca (Centro), Cidade Tiradentes, Mooca e Av. Paulista. Rio de Janeiro: Morro do Vidigal, Parque Madureira, Praça do Lido (Copacabana) e Praça Sáenz Peña (Tijuca).

Precisamos falar do assédio, por Paula Sacchetta

Depois de termos visto as redes sociais serem inundadas com as hashtags #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto e #agoraéquesãoelas, no que uma amiga chamou de “Primavera Feminista”, ficamos com vontade, nós aqui da Mira Filmes, de produzir um documentário que registrasse essas histórias e, mais que isso, que as tirasse das redes e ocupasse os espaços da cidade com o tema.

Poderíamos chamar as mulheres para falar aqui mesmo, em uma sala fechada dentro da produtora. Mas decidimos fazer um estúdio móvel, uma van que circulasse por diferentes lugares para colher esses depoimentos pela cidade, sem pesquisa prévia, para que fosse também uma campanha: Precisamos falar do assédio.

Assim, na Semana da Mulher, de 7 a 14 de março, paramos a van em nove lugares de São Paulo e Rio de Janeiro. Dentro dela, as mulheres ficavam sozinhas, sem qualquer tipo de entrevista ou interlocução. A idéia era que fosse um momento íntimo e de desabafo. Ela olhava para a câmera e começava a falar. Escolhemos a palavra assédio para que ela pudesse abarcar do mais simples fiu-fiu, que escutamos na rua todos os dias, até os casos das violências mais perversas.

Também ficamos com outra questão: o que fazer com as que quisessem falar sem se identificar, sem mostrar o rosto? Sabemos que já existe a questão de culpabilização da mulher que sofre violência. Não queríamos borrar os rostos como fazem com criminosos que aparecem na televisão. E precisávamos deixar claro: quais são os motivos que fazem as mulheres quererem falar sem se identificar?

Chamamos então uma artista para produzir máscaras que representassem alguns desses motivos: medo, raiva, vergonha e tristeza. As que quisessem poderiam usar uma das máscaras e ainda ter a voz distorcida. Se não, era só começar a falar quando a porta fechasse.

Quando colocamos a van na rua, não tínhamos idéia do que iria acontecer. Espalhamos notícias pela internet, rádio, televisão e jornais convidando as mulheres a falar. Ao fim dos sete dias havíamos coletado 140 depoimentos, que geraram mais de doze horas de material bruto.

As meninas chegavam de todas as formas: passavam pela van, ficavam curiosas, nos perguntavam o que era aquilo e decidiam entrar nela para falar. Outras, vinham de longe decididas; haviam visto na televisão e precisavam contar a própria história. Algumas ainda perguntavam o que era aquilo, davam uma olhada dentro, iam embora e voltavam depois de horas para dar seu depoimento. Elas tinham até cinco minutos para falar, mas algumas falaram 16.

Uma delas me disse que nenhuma das quatro máscaras representava o que ela sentia, que o sentimento dela era, na verdade, “uma mistura dolorida daqueles quatro”. Apaguei a luz e ela contou sua história no escuro, sem máscara e sem mostrar a cara. Via de regra, ali na hora eu não via nem ouvia nada. Mais tarde, quando assisti ao depoimento, entendi o motivo: ela havia sido abusada pelo próprio pai, dentro de casa.

Comecei a assistir a todos os depoimentos: "Eu era escrava da pancadaria", começava uma. Olhei os formulários preenchidos: “Com quantos anos aconteceu seu caso de assédio?”. Resposta: “6 anos”.

Depois de um longo processo de edição, selecionamos 28 depoimentos e os transformamos em um filme de 80 minutos. Mas os 140 ficarão disponíveis na íntegra, sem cortes, em um site, que ainda contará com uma ferramenta de gravação de novos depoimentos. Qualquer mulher, de qualquer lugar do mundo, poderá gravar e enviar o seu relato.

Desde que cheguei a uma versão mais pronta do filme, comecei a mostrá-lo para algumas pessoas. Fico sofrendo durante os 80 minutos, me perguntando "por que estou fazendo as pessoas passarem por isso?", "por que fazê-las escutar todas essas histórias terríveis de dor?".

Depois que o filme termina, com todo mundo destruído, e as pessoas começam a falar, eu lembro porque o fizemos. Eu lembro porque precisamos falar do assédio.

Para além dessas sessões que chamamos de “cabine” – em que basicamente mostramos o filme para gente da área para palpitar –, fizemos uma só para as meninas que estão no filme. Eu achei que seria a mais difícil de todas e que, depois de se verem na tela, elas iriam querer ser tiradas do filme por vergonha, medo da exposição ou alguma coisa do tipo. Após a sessão, a primeira coisa que todas falaram, quase em coro, foi “obrigada”. Aquele tinha sido um primeiro passo para elas começarem a falar de suas dores. E assim começamos a conversa que foi a mais difícil que tive até agora sobre o filme, mas também a mais bonita.

Uma delas disse que se sentia transparente, exposta. E que via através de todas as outras ali na sala também. Mas que se sentia abraçada. Que se sentia segura ao lado das outras e que queria abraçar todas as mulheres do mundo. A outra, ainda com lágrimas nos olhos depois de ver seu próprio caso de estupro na tela, disse que sempre havia pensado que a “a grama do vizinho era mais verde”, mas que ali viu que não era bem assim. Que havia histórias até piores que a sua. Completou dizendo que se sentia acolhida.

Três que tinham pedido para distorcer a voz, quiseram suas vozes normais de novo. Decidiram, depois de ver o filme e de se ver no filme, contar seus casos sem a voz alterada. A máscara bastava.

Eu lembrei, pela segunda vez, porque estou fazendo isso. Entendi o tamanho que ficamos quando estamos juntas. O poder que temos, juntas, de transformar o mundo em que vivemos. Entendi o sentido mais profundo da palavra acolhimento.

Ficou claro, de novo, que temos que falar, sim, cada vez mais, e aceitar cada vez menos. Um terço das 140 falou usando máscaras. É um numero grande, sim, mas a maioria falou mostrando o rosto. Sem medo ou vergonha.

Que o filme, as hashtags e nossos encontros reais façam a dor das marinas, adelaides, carolines, ericas, marianas, isabellas, brunas, natálias, lúcias, flávias e ágatas chegar a todas as mulheres e homens do mundo. Que nos faça caminhar para um lugar melhor, onde possamos andar na rua, trabalhar e frequentar espaços de família sem medo simplesmente por sermos mulheres. Sim, precisamos falar do assédio, cada dia mais e mais livres, com mais liberdade, menos medo e sem máscaras.

Texto publicado em 19/08/2016 no #AgoraÉQueSãoElas, blog da Folha de S.Paulo.

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