Guarnieri

Longa Doc, 2017
Cinema

Guarnieri

Longa-metragem, Documentário, 72', 2017

Arte, política e família são demais para um homem só?

Sinopse

Gianfrancesco Guarnieri foi ator de grande sucesso na televisão, autor fundamental na história do teatro brasileiro e imagem-síntese do artista engajado. Figura pública excepcional, em relação a seus dois filhos mais velhos, sua figura paterna estava mais para ausente. Contrariando os caminhos do pai, eles, Flávio e Paulo, também atores, assumiram um total distanciamento entre arte, trabalho e política, privilegiando a esfera da família. A partir desses dois retratos geracionais, o diretor Francisco Guarnieri procura reconstruir a figura de seu avô distante. Valendo-se de materiais de arquivo íntimos e públicos, entrevistas e reencenações, o filme pretende refletir sobre um passado ao mesmo tempo nacional e privado, e sobre o papel do indivíduo na sociedade, na arte e na família.

Histórias que Ficam, programa de fomento ao documentário

Guarnieri foi um dos vencedores da segunda edição do Histórias que Ficam, programa de consultoria, fomento e difusão do documentário brasileiro  da Fundação CSN,  realizado  com patrocínio da CSN, por meio da  Lei Federal de Incentivo à Cultura. Além do aporte financeiro, o Histórias que Ficam promove laboratórios de desenvolvimento de projeto,  produção, montagem, distribuição, e consultorias com cineastas renomados. Depois de finalizados, os filmes participam da Mostra Itinerante e são exibidos, principalmente, em cidades que não possuem um circuito expressivo de exibição. Mais informações sobre o programa podem ser acessadas em www.historiasqueficam.com.br.

Guarnieri, por Francis Vogner dos Reis, crítico de cinema é co-roteirista do documentário

Apesar de ter como personagem central o ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, o documentário Guarnieri não é um documentário biográfico. O filme também lida com um conflito familiar, mas tampouco é um documentário de perspectiva intimista, no sentido de transformar os afetos pessoais em elemento estruturante. Ao usar a primeira pessoa e implicar o seu ponto de vista pessoal, o diretor Francisco Guarnieri busca menos falar de si e mais fazer uma mediação entre as diferentes gerações de sua família e adotar um ponto de vista crítico frente aos conflitos geracionais, artísticos e políticos entre seu falecido avô Gianfrancesco Guarnieri, seu pai Paulo Guarnieri, seu tio Flávio Guarnieri e si próprio, o último da linha genealógica que também herdou o ofício da arte.

Os afetos e a arte aqui possuem uma perspectiva histórica. Francisco Guarnieri é fiel ao avô no sentido de entender os conflitos familiares e pessoais subordinados às vicissitudes do tempo histórico e do compromisso do indivíduo com o destino coletivo, não o individual. Para tanto, ele usa a própria obra de Guarnieri no teatro – “Eles Não Usam Black-tie” (1958) e “A Semente” (1961) – para iluminar e problematizar os conflitos geracionais de natureza artística, pessoal e política. Ambas as peças trabalham a divisa entre a ação política (o destino histórico) e o conforto pessoal e familiar (destino individual), temas que se revelam assuntos fundamentais de Francisco Guarnieri com seu tio, Flávio, e seu pai, Paulo.

O conflito familiar entre o Guarnieri politizado e distante dos filhos, que veria na arte um modo de intervenção na vida e no mundo, dos filhos Paulo e Flávio que seriam representantes de uma geração mais pragmática e conservadora politicamente que separou arte e política, e do neto, o próprio diretor, que se interroga pelo legado do avô que conheceu pouco (mas que se sente ligado ideologicamente) e das diferenças inconciliáveis com a geração de seu pai e tio.

Para tanto o filme se faz como um ensaio sobre as aproximações e distensões entre arte, política, trabalho e família, a partir de imagens de arquivo do trabalho de Gianfrancesco Guarnieri no Arena, no cinema e na televisão, como também de suas declarações públicas sobre arte e intervenção política. O diretor também realiza entrevistas com Flávio e Paulo Guarnieri para implicar alguns pontos de conflito entre o idealismo da geração de seu avô, o pragmatismo da geração e seu pai e seu tio e a orfandade da sua própria geração que se vê um pouco atrelada ao modelo dos pais sem saber ao certo como ressignificar o legado do modelo do avô.

A leitura das peças “A Semente” e “Eles Não usam Black-tie” – assim como também as imagens do filme de Leon Hirszman – ajudam a criar um espelhamento tortuoso mas também distintivo entre a obra de Guarnieri, a história de sua família (com suas distâncias, afinidades e lacunas), o inevitável conflito de gerações e a trajetória do Brasil dos anos 1950 para os tempos de hoje, passando pela ditadura, pela democratização e pelas inquietações políticas atuais.

O filme reflete sobre a responsabilidade do artista para com o seu tempo e os encontros e desencontros entre gerações com pontos de proximidade e divergência, por meio da história de uma família que se faz entre o amor e as lacunas afetivas, entre a presença e ausência, entre a arte e política.

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